Intervalos Memoráveis
"A arte é o ofício da alma."
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Uma Noite Misteriosa

 

Às vezes, a solidão me engole. Eu ando por ruas estreitas, corredores e saio para ver a luz do sol e a única coisa que me resta é o silêncio. E era muito estranho. Por que eu ali sozinho? Sinceramente, desisti de tentar entender, há coisas que transcendem nosso entendimento. Mas eu não podia deixar de ficar triste, lágrimas rolaram pelo meu rosto, quando eu percebi que a pessoa que devia me buscar não apareceu. Injusto, por que tão injusto?

 

E a história foi mais ou menos assim. Me abandonaram na chuva em uma rua estreita. Caía uma chuva torrencial, e eu me espatifei no chão com a força do impacto, e quando me dei conta estava jogado no asfalto com a minha capa preta toda encharcada. Com muito esforço me levantei, abrindo meu guarda-chuva. Procurei a minha mala ao redor, e vi que ela tinha sido jogada do outro lado da rua. Estava aberta e as notas de dinheiro se espalharam por todo o asfalto, àquela altura se desfazendo, como meros papéis de brinquedo.

 

Esperei ficar desesperado, mas a situação era quase cômica. Olhei ao meu redor, a rua estreita estava escura, a não ser por uma única lamparina ainda acesa. Eu não sabia o que fazer, nem sabia pra onde ir. Estava ali a pensar, quando alguém começou a tocar um piano, notas de uma música muito suave se espalharam pelo ar. Fiquei ali a escutar, quando percebi um vulto se aproximar de mim, sendo possível apenas visualizar a silhueta de uma pessoa encapuzada, e que me chamava para seguir a música. A passos rápidos, e sem saber exatamente o porquê, segui a figura silenciosa, que me levou a um lugar todo escuro, que logo vi era um teatro.

 

Ali dentro, todas as poltronas estavam completamente vazias. Me sentei numa cadeira bem ao centro, confuso e perplexo, a quietude ao meu redor engolindo tudo, quando de repente luzes se acenderam no palco e o piano então começou a tocar sozinho. Mais uma vez, uma música suave e etérea começou a embalar o ambiente, quando uma dançarina entrou no palco encenando gestos graciosos. Suas vestes brilhantes, com muitas lantejoulas e brilhos, tornavam sua presença muito atrativa. Meus olhos acompanharam cada movimento da sua dança, enquanto a dançarina bailava de um lado para o outro no palco, embalada pela música do piano. Ela parecia não dançar para ninguém, provavelmente não tinha percebido minha presença ali na plateia, continuando assim suas acrobacias singelas. Eu apenas acompanhava sua dança, completamente envolvido pela perfeição da apresentação.

 

E então, de repente, inacreditavelmente, começou a chover dentro do teatro. Uma chuva fria e torrencial que encharcou a minha roupa de uma vez só. O piano começou a desafinar e a embalar uma música triste; a chuva desmanchou o figurino da dançarina, desfez seu penteado e a maquiagem derreteu por suas faces coradas. A chuva continuou a cair, até que a música parou de tocar, as luzes do palco diminuíram e os movimentos da dançarina se tornaram cada vez mais lentos, até que não sobrou mais do que uma mera lembrança.

 

Fiquei parado, perplexo, olhando tudo aquilo, sentindo meu corpo ser encharcado pela fria chuva torrencial que não parava de cair. Era como se eu estivesse acordando de um sonho. Até que, de repente, aparece alguém desesperado ao meu lado, me chamando debaixo de um guarda-chuva.

 

- Ei, Senhor, venha, tem um carro lá fora esperando para levá-lo de volta ao banco.

 

Pensei em perguntar sobre todo o ocorrido, mas não tive tempo de dizer nada. Foi aí que me levantei e fui embora sem olhar para trás.

Camila Carelli
Enviado por Camila Carelli em 02/01/2026
Alterado em 02/01/2026
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