O Jardim de Perséfone
Alguém me chama para atravessar o portão de um jardim. Lá dentro, uma vastidão de chão repleta de flores atinge o infinito. Lírios estão por todos os lados e um cheiro de narcisos, um cheiro doce se espalha por todo o ar, inebriando os sentidos de quem atravessa o jardim. Jacintos e belas árvores crescem por todos os lados. Existe um silêncio e um mistério que enreda todos os cantos.
Eu entro ali, silenciosamente, passo a passo, prestando atenção ao silêncio. Uma fumaça leve acaricia minhas pernas. Sinto a presença de alguém ali, alguém que me chama a adentrar no mistério. Sinto presenças que não tem voz. Aquele jardim parecia abandonado, mas eu sabia que tinha dono. O dono não se revela, mas me chama. Me chama a atravessar a escuridão e deixar minhas dores do lado de fora. Algo em mim precisava ser transformado.
Desde o instante em que entrei no jardim eu sabia que algo em mim nunca mais seria como antes. Caíram-se as máscaras. E isso me assustou. Colho um ramo de flores para alguém que não sei o nome. Sei que preciso atravessar os mistérios. O cheiro anestésico da papoula se espalhava no ar, e no mesmo instante eu inspiro, amortecendo meus sentidos. O chão parecia rodopiar, minha visão ficou turva, meu corpo adormecido. Até que me sinto caindo ao chão, adormecida. Como é difícil aceitar certas dores, certas realidades. Nada nunca foi perfeito. E nunca será. Existia algo ali, alguém, sem dúvidas.
A dona do jardim aparece para mim em seu vestido negro. Uma presença etérea, misteriosa. Eu suspeitava, era a guardiã dos mistérios vida-morte-vida bem ali na minha frente. Olhei para ela e seus olhos negros me olharam de volta. Eu estaria viva ou morta? Sim, naquele instante percebi que existe muito mais além do que nossos olhos podem ver.
Alguém me levantou do chão. Eu estava pronta para o que estava por vir. Deixe suas dores do lado de fora, suas dúvidas, tudo aquilo que não lhe serve mais, uma voz sussurrou no meu ouvido. Toda a sorte de pensamentos inúteis, desejos frustrados. Sim, uma nova transformação estava vindo. Eu não podia controlar. Abandone o controle, ela sussurrou mais uma vez no meu ouvido. Filmes e projeções mentais também, como se eu soubesse o que era bom para mim.
Apenas confie, eu ouvi alguém dizer. De repente, o céu ficou escuro. As flores se mexeram ao passar do vento sombrio. O jardim estava todo atento ao que ia acontecer. Nunca imaginei que a minha morte seria assim. Foi aí que a mão fria da Rainha então me puxou e a escuridão me acolheu.