Intervalos Memoráveis
"A arte é o ofício da alma."
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Campo de Macieiras

 

Uma chuva fina caía lá fora, regando carinhosamente as folhas e flores do pequeno jardim. Eu tinha acordado cedo na minha casa de campo, que estação após estação sempre estava do mesmo jeito. Um estreito raio de sol entrava pela janela do meu quarto, e dali eu conseguia ver um arco-íris se formando no horizonte. Estava sozinha, mas não me sentia assim. Era um milagre acordar para mais um dia, e eu me sentia profundamente grata pelo o que estava por vir. 

 

Me levantei da cama, desci as escadas e a porta da sala se abriu sozinha ao sentir que eu me aproximava. Lá fora, eu pude ver um caminho se formando à minha frente, enquanto macieiras surgiam de ambos os lados, com maçãs muito vermelhas pendendo de seus galhos. 

 

Me aproximei com a intenção de colher uma maçã, a mais vermelha que eu tinha visto, e olhei para cima, o céu muito azul lá em cima. Nuvens brancas se aproximavam, e eu pensei se não poderia chover. Ali o tempo mudava tão rápido quanto o girar das estações. Escutei um farfalhar perto de mim, e pensei se não poderia ser os passos de alguém tentando se aproximar de mim. Me assustei, mas então lembrei que estava muito longe do centro urbano.  

 

Voltei meus olhos novamente para o caminho ladeado por macieiras que se perdia no horizonte. E que paisagem deslumbrante. Pensei que poderia pegar um dos meus cadernos e arriscar um rabisco. Uma ótima forma de passar o tempo. E de registrar aquele momento. Sim, o tempo é tão efêmero. O tempo passava de forma diferente enquanto eu pintava ou escrevia. Era como se eu fosse transportada para outra dimensão daquela realidade. E era por isso que eu amava o silêncio, e toda aquela natureza ao redor. 

 

Estava fazendo meu primeiro rabisco, a circunferência de uma maçã, quando as primeiras gotas do que parecia ser uma garoa, começaram a encharcar as folhas do meu caderno e a espalhar a tinta desmanchando os traços e as formas. Será que uma tempestade estava por vir? Será que o azul brilhante do céu logo seria desfeito? A tinta se moveu sozinha pela folha do caderno escrevendo meu nome numa caligrafia bela e elegante: 

  • Emília Campos Dubone 

Fiquei encantada com esse gesto mágico em meio àquela manhã. E ao mesmo tempo preocupada quando percebi que o céu começou a escurecer, as folhas da macieira começaram a balançar, e a deslumbrante paisagem começou a se desfazer perante meus olhos como as tintas derretidas e borradas de um quadro. Uma ventania agitada bagunçou meus cabelos, e algo me disse que era hora de ir embora. Dei então uma última olhada ao meu redor, as maçãs se despedindo de mim ao longe, e me voltei de volta para casa. 

 

Camila Carelli
Enviado por Camila Carelli em 03/05/2026
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