Intervalos Memoráveis
"A arte é o ofício da alma."
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O telefone toca... 

 

Era mais um dia corriqueiro no quartel, e eu estava a observar, distraído a um canto da sala, os artefatos que decoravam a parede à minha frente, quando um oficial me chamou num canto e disse que tinha uma ligação para mim. Fiquei surpreso, e mesmo receoso o segui até a sala ao lado. Ao pegar o telefone nas mãos, reparei em sua chamativa cor vermelha, e em como era estranho o fato de que eu nunca tinha reparado naquele detalhe em todo o tempo que estivera ali. 

 

Fazia pouco tempo que eu havia sido recrutado para um quartel no Centro-Sul dos Estados Unidos, que ficava num local seco e árido, especificamente no meio do deserto. Aquele quartel era mais quieto e misterioso do que os outros que eu já estivera, ninguém sabia de nada, e eu também, na verdade, não sabia o que estava fazendo ali. Cada oficial que eu abordava para querer esclarecimentos sobre a minha situação ali, me entregava silêncio como resposta. Não sei se não sabiam ou se não podiam me contar. Tudo isso gerava um clima que, por vezes, me causava medo. 

 

Enfim, peguei o telefone e a única coisa que pude escutar foi um chiado longo. Não parecia ter ninguém na linha. Até que uma voz de choro começou a falar: 

 

— Guilherme, é você? Por favor, me escute, você precisa voltar para casa. 

 

Aquela voz não me parecia estranha, mas a sua urgência me fez parar de pensar no mesmo instante. 

 

— Por favor, querido, coisas estranhas estão acontecendo aqui... 

 

Estranhamente e talvez rápido demais, eu comecei a ficar desesperado. Percebi que o oficial estava bem ao meu lado, e comecei a falar baixo quase num sussurro: 

 

— Por favor, quem fala? 

 

A voz do outro lado pausou por um momento, talvez incrédula ou em dúvida: 

 

—​​​​​​​ Sou eu, Mabelle, querido! 

 

Na hora que a voz chegou aos meus ouvidos na forma de um chiado, senti como se o mundo tivesse parado, enquanto uma atmosfera quente e confusa me envolvia. Vapores quentes pareciam subir ao meu redor, mas só podia ser confusão da minha cabeça. Não podia ser ela, como teria me encontrado? Então, perguntei: 

 

— Mabelle, hum, como você conseguiu meu número? 

 

E a voz respondeu: 

 

— Não importa, Guilherme! Volte para casa. Você não sabe o que está acontecendo. Minhas faces estão derretendo, se desmanchando. Toda vez que eu olho no espelho, minha maquiagem fica toda borrada, meu batom vermelho derrete pela boca. Por favor, querido, alguma coisa está errada comigo. Volte para casa, por favor. 

​​​​​​​

No fundo, eu não tinha assimilado direito as suas palavras. Não podia estar mesmo ouvindo aquilo. O chiado no telefone atrapalhava, e tornava tudo ainda mais confuso. 

 

     — Mabelle, eu não posso... - disse eu, confuso e aturdido ao mesmo tempo. 

 

Então, alguém me trouxe um café, me dizendo que o tempo de ligação havia terminado. Eu me apressei em dizer: 

 

      —​​​​​​​ Mabelle, escute, não entre em pânico, vou dar um jeito... 

 

A voz do outro lado ia dizer algo quando o chiado cortou a ligação num ruído alto e longo. Afastei o telefone do ouvido, ainda atordoado pelas palavras que ouvira, hipnotizado pelo vermelho estonteante do telefone, e olhei para o oficial que vinha em minha direção. 

 

      — Seu tempo acabou, Barbosa – disse ele.

 

      — Tudo bem, parece que a ligação caiu – respondi, saindo imediatamente da sala. 

Camila Carelli
Enviado por Camila Carelli em 23/05/2026
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