Intervalos Memoráveis
"A arte é o ofício da alma."
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A Cicatriz 

 

Era mais um dia na minha rotina no quartel. Quando abri os olhos já podia ver os raios de sol esquentando o pátio e os jardins lá fora. Meus olhos piscaram e meu rosto se contorceu ao entrar em contato com os raios de sol brilhantes. Senti a minha face esquentar, mas sabia que precisava me levantar para mais um dia na mesma rotina. Percorri meus olhos pelo quarto, e vi minhas botas descansando no canto do armário. Meu uniforme estava me esperando dentro do armário, impecável como sempre.

 

 Senti o espaço um pouco vazio, e então percebi que meu amigo não estava ali. Provavelmente, estava lá fora me esperando. Num instante, me arrumei e admirei espantado e satisfeito meu reflexo no espelho. Os raios de sol iluminaram a minha silhueta, e eu fiquei pensativo por um momento. Reparei em como a minha pele de oliva estava num tom mais bronzeado. Tentei me lembrar em qual ocasião eu ficara assim.  

 

Um apito então soou lá do lado de fora, e então fui arrancado de meus pensamentos. Rapidamente, me dirigi até a porta, e encontrei Marc lá do lado de fora, em prontidão. Vi seu rosto congelado numa expressão fria, sua mão direita em continência, e seu corpo tão sem vida quanto um boneco de cera. Ao me ver, imediatamente bateu continência e sorriu. 

 

— Finalmente, Guilherme! Já estava indo te chamar... 

 

Subitamente, ele pegou um cigarro de seu bolso e começou a fumar, a fumaça subindo, soltando círculos de fumaça que subiam pela sua face. Olhar para Marc, às vezes, era estranho. A cicatriz que percorria o lado esquerdo do seu rosto de ponta a ponta mantinha a expressão desse lado paralisada. De modo que seu sorriso era estranho e ambíguo. Como se sua alegria ou tristeza só fossem expressas por um lado, enquanto o outro ficava preso numa expressão mórbida, como lembrança daquele fatídico acidente que quase lhe tirou a vida. Como se assim Marc nunca pudesse esquecer, despertando também curiosidade em quem olhava pra ele a respeito do que podia ter acontecido. 

 

Assim, ele apagou seu cigarro, e eu num abraço fui trazido de volta à realidade. Saímos lado a lado um do outro, no mesmo compasso, percorrendo os mesmos corredores, atravessando as mesmas portas, encontrando os mesmos rostos, e fazendo as mesmas continências, até chegarmos do lado de fora do quartel após atravessar um imenso portal. Os raios brilhantes de sol iluminaram nossos rostos, fazendo arder nossa pele, sendo que bem à nossa frente se estendia uma paisagem muito calma e muito bela, um jardim repleto de labirintos, muitas árvores e flores por todos os lados. 

 

Como de costume, andamos juntos pelo jardim até chegar a uma região asfaltada onde podíamos correr. Ficávamos algum tempo ali, correndo em volta do circuito. Era um momento livre em que eu podia sentir meu corpo leve e curtir o momento presente. Seguimos assim em absoluto silêncio, apenas com o barulho das botinas batendo contra o asfalto, até que Marc começou a falar sobre o dia de seu acidente. Suas palavras saíam rápido pela boca, ao passo que ele corria ofegante. Uma profusão de imagens começou a se passar pela minha mente, conforme ele narrava o que tinha acontecido. 

 

Naquela época, há não muito tempo atrás, eu e Marc estávamos no meio de um bombardeio, com a atmosfera ao nosso redor escurecida pela fuligem e fumaça do puro caos. Lembro que em algum momento, nós nos separamos e eu fiquei perdido num labirinto caótico, sem saber para onde correr direito. Até que três homens esbarraram em mim, aflitos, dizendo que Marc havia sido atingido. 

 

 Ele narrava o ocorrido, suas palavras saindo cada vez mais rápido de sua boca, nós dois correndo cada vez mais rápido. Aconteceu que ele havia se confundido e caído numa emboscada, ao virar a esquina de um prédio em ruínas. Uma fuligem branca ao seu redor tomava o ar e turvava-lhe a visão. Alguém, uma voz lhe alertara para não ir por ali, mas quando percebeu já era tarde. Um explosivo foi detonado bem à sua frente. De repente, tudo parecia um sonho, e a única coisa que podia ouvir eram sons confusos. Algo atingiu seu rosto em cheio, cortando e dilacerando a face esquerda de cima a baixo, fazendo com que desmaiasse no mesmo instante. 

 

O projétil que lhe atingira era um completo mistério, até hoje não se sabia ao certo o que lhe atingira. Que tragédia, eu pensei, e percebi o quanto era difícil para Marc relembrar a história. Era possível sentir o sofrimento e o pânico que lhe tomavam o corpo enquanto ele narrava o episódio.  

 

Me lembro que, na época, quando cheguei ao local do acidente, Marc já tinha sido levado em uma maca para o hospital. Quando o reencontrei novamente, seu rosto já estava todo transfigurado, coberto por uma faixa de esparadrapo em recuperação no hospital. 

 

Houve um momento de silêncio entre nós, quando Marc terminou de contar sobre seu acidente. Fiquei em silêncio, aflito, sem saber ao certo o que dizer. Caberiam ali palavras de consolo? 

 

Fomos diminuindo nossos passos, até que estávamos andando lado a lado, num único compasso. Os raios de sol voltaram a queimar a pele do meu rosto, e a iluminar a imensa cicatriz no rosto de Marc. Fomos andando calmamente até o jardim que se desenrolava à nossa frente. Muitas tarefas esperavam por nós em mais um dia, enquanto o silêncio reinava entre nós, e a única coisa que se podia ouvir era o vento balançando as folhas das bananeiras. 

Camila Carelli
Enviado por Camila Carelli em 23/05/2026
Alterado em 24/05/2026
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