Intervalos Memoráveis
"A arte é o ofício da alma."
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Boneca

 

Um dia inesquecível. Jamais me esqueceria daquelas mãos que me rasgaram, me recortaram. 

 

Eu era uma boneca linda, de belos cachos dourados, vestido de cetim e bordados roxos, que me subiam pelas pernas e desciam pelos braços. O vestido era cerzido delicadamente, com pérolas percorrendo o caminho de costura, formando um belo desenho. Eu tinha um ar dramático, faces coradas e olhos grandes e pintados. Como um fetiche num canto da prateleira. 

 

 Nunca ninguém tinha me negado um sopro de vida. Foi injusto comigo. Uma crueldade sem fim. Por que aquelas mãos fizeram aquilo comigo? Me arrancaram da prateleira, e do vestido foi feito retalhos, jogados pelo chão da sala. Me cortaram e cindiram ao meio. E agora eu me via ali tendo o trabalho de me costurar toda. De dentro para fora.  

 

E sim doeu, doeu profundamente. A realidade pesou demais, enquanto meus membros eram arrancados. O presente se tornou difícil de encarar. Era o dano, o irreversível. Como uma nuvem de fumaça que encobria tudo ao meu redor. Alguém sem o mínimo de compaixão; alguém que sabia o dano que causava, e mesmo assim fazia. E não me restava nada a não ser aceitar o que me acontecia. Da minha beleza e da minha bondade sobraram uma face retorcida, retalhos jogados no chão da sala. 

  • O que fizeram com a boneca? - perguntou o menino, assustado, ao entrar na sala. 

E era exatamente o que aquela cena era: uma imagem de horror. Não me espantava que alguém levasse um susto. Mas a pergunta que ficava era: por que eu fora vítima daquilo? Não adiantava pensar, e eu devia fazer o que devia ser feito: pegar cada pedaço e me reconstruir. Recomeçar de novo. Mesmo sem esperanças. Mesmo doendo. Quando o destino nega nossos desejos, quando algo se quebra diante de nós ou dentro de nós, é isso o que acontece. Não há saída. Faz-se necessário se reconstruir. 

 

Meus cabelos foram cortados, a maquiagem da minha face borrada, num assombro avassalador do destino que me trouxe uma decepção. Não posso negar a ferida. Não posso negar a minha solidão. E com uma agulha nas mãos, eu vou agora costurar dano por dano, cada ponto fechando a abertura do meu coração, costurando cada braço e cada perna.  

 

A linha corre vagarosamente, a agulha abre caminhos rasgando o retalho e mostrando a verdade. De cima a baixo. E corre e perfura o tecido, e emenda o pano. Posso sentir o clamor da ferida que não quer fechar.  

 

O processo de costura também é doloroso. O processo de cura é longo, e a costura é o início do processo. Costurar significa  olhar com sinceridade para o dano causado. É sustentar o olhar para aquilo que não pode ser remediado. É aceitar que não é possível voltar atrás. Que não é possível se ter o que se quer. O objeto desejado se foi e já está com outro. É encarar o vazio, pois o que te sobra são retalhos. E a única força que me resta é a de segurar a agulha e fazer os movimentos de costurar, um zigue-zague de cima abaixo. Um zigue-zague em meio a lágrimas e terror. Eu só queria a minha vida de volta. A alegria de ser quem sou. 

 

Poor dool! Toda destruída por intenções cruéis. Sem aviso. Sem motivo. Enfim, a costura termina, e o que temos é uma boneca cheia de retalhos e cicatrizes. Costuras que vão sempre lhe lembrar da dor vivida. Mas que apesar do retalhamento ainda era quem sempre fora. Havia o mesmo rosto belo, a mesma doçura por trás da costura, o rosto corado, a boca rosada e os olhos borrados de um azul escuro. Tudo estava lá. A sua essência não podia ser tocada. Nenhuma dor, nenhuma deslealdade, nenhuma traição podiam destrui-la.  

 

A boneca retalhada então fora colocada de volta na prateleira. Guardaram-se as linhas e as agulhas nas caixas de costura. Um meio sorriso se formou no canto da boca da boneca. Um sinal de renascimento. Um sinal de que ainda havia vida pra ser vivida, e muita coisa a ser descoberta. O tempo seguia, a vida continuava. 

 

Camila Carelli
Enviado por Camila Carelli em 30/05/2026
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