Marc se olha no espelho
Parte 1
O conflito continuava, e já seguia por horas. Confesso que já estava cansado, o fuzil já pesava sobre meus ombros, e meus dedos estavam enrijecidos com a tensão que corria pelo meu corpo, mas não havia o que fazer a não ser continuar.
Eu tropeçava em corpos caídos à minha frente, uma fuligem negra avançava sobre mim conforme eu avançava, e um barulho ensurdecedor se espalhava por todos os lados. Bombas e foguetes formavam uma sinfonia de explosões que se cruzavam no ar, e não se sabia ao certo de onde vinham os sons.
Porém, eu continuava caminhando aos tropeços, sentindo o suor escorrendo pela minha pele de oliva queimada pelo sol, atravessando escombros, um cenário digno de horror. Até que fiquei sabendo que Marc havia sofrido um acidente. E grave pelo visto, pois foi levado às pressas para a enfermaria. E eu não podia deixá-lo lá sozinho, mas também não podia abandonar o conflito. Num desespero e numa confusão, deixei meu armamento com alguns colegas que se reuniam frente à um escombro, e segui em direção a alguns carros que partiam, imaginava eu, para o hospital. Muitos soldados feridos eram colocados ali e levados às pressas para serem atendidos. Reconheci a cruz vermelha na porta da caminhonete, percebi que uma enfermeira de lábios muito vermelhos me olhava de cima a baixo, mesmo assim não hesitei e pulei para dentro do furgão. Naquela confusão de gemidos, pavor e coisas explodindo ninguém sequer reparou em mim.
Que bom! - suspirei aliviado -
Trafegamos por um tempo, e a imagem que eu via dentro do automóvel me causava horror e muita ânsia. Corpos amontoados, balançando pra lá e pra cá em meio a gemidos que atravessavam a atmosfera. A sensação era a de que eu estava separado do que estava acontecendo, tudo parecia um filme em cortes rápidos, até que, enfim, após percorrer um trajeto curto e de estrada de terra chegamos ao hospital.
O Tombo das Horas - Livro 2