Intervalos Memoráveis
"A arte é o ofício da alma."
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Marc se olha no espelho

 

Parte 2

 

Desci rapidamente do furgão, e subi por um caminho sinuoso até a entrada do hospital, enquanto enfermeiros passavam apressados empurrando macas. Eu parecia invisível ali, em meio àquela balbúrdia, com meu uniforme camuflado contrastando com todo o branco ao redor.

 

Não sei exatamente como, mas uma enfermeira, acho que a mesma dos lábios vermelhos, ao me ver parado confuso na porta do hospital, se aproximou de mim e me informou onde Marc estava. Agradeci, sem pensar muito, e fui em busca da Ala 7, onde Marc estava. Depois de dois corredores para a direita, e outros dois para a esquerda, lá estava ele deitado numa maca. Eu parei, hesitante, na porta, e vendo que ninguém me observava, entrei. Fiquei parado alguns instantes ao seu lado, olhando para o seu rosto todo enfaixado, embalado ali num sono profundo. De repente, um filme se passou pela minha cabeça. Me lembrei das manhãs em que corríamos juntos, das tantas vezes que Marc fumava seu cigarro, soltando baforadas de fumaça que subiam em espirais para o alto, ou assoprando a fumaça em meu rosto, ou jogando a bituca de cigarro em mim, formando pequenos furos em meu uniforme, em tom de brincadeira. Vê-lo ali me deixou preocupado, e profundamente triste. Mas algo me dizia que aquele momento de angústia iria passar.

 

Fiquei ali, mais alguns momentos absorto em meus pensamentos, quando a sala ficou instantaneamente gelada. Vapores de água começaram a subir do chão, turvando a minha visão. Nem tive tempo de pensar, ou entender o que acontecia, quando um torpor tomou meu corpo, e eu me vi distante da realidade. A silhueta de uma bela mulher se formou então ao lado de Marc, seu vestido contrastando com a sala num vermelho muito vivo. Me perguntei se aquilo era real, mas ela parecia muito onírica, envolta numa atmosfera de sonhos. Fui tomado pelo medo e outras alucinações. Claro, aquilo já era efeito do cansaço e de tantas explosões ao meu redor.

 

A mulher olhou para mim e apontou para Marc, enquanto sua boca balbuciava palavras para mim, mas eu não conseguia entender nada. Percebi que ela apontava o aparelho ao lado dele, que mostrava sinais instáveis, que subiam e outra hora desciam. Fiquei confuso, inseguro sobre o que estava acontecendo, até que ela, num último gesto, apontou para a porta atrás de mim no mesmo instante que desaparecia em meio ao vapor gelado. Num instante, a sala voltou ao normal, e o aparelho ao lado de Marc disparou. Percebendo passos apressados no corredor, eu vi que era hora de me retirar. E rápido, atravessei e saí pela porta do outro lado da sala, enquanto três enfermeiros entravam apressados para socorrer Marc.


O Tombo das Horas - Livro 2

Camila Carelli
Enviado por Camila Carelli em 21/09/2026
Alterado em 21/09/2026
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